Droga, Prisão, Pena De Morte


O EXPRESSO DA MEIA NOITE
Lançamento: 6 de outubro de 1978 (USA)
Direção: Alan Parker / Roteiro adaptado: Oliver Stone
Música: Giorgio Moroder
Elenco: Brad Davis, Irene Miracle, John Hurt, Randy Quaid, Bo Hopkins

O Tráfico na Indonésia e sua punição. A Morte. Sabemos vimos ouvimos. Mídia atenta nesses casos. Porém, já em 78, um filme mostrava as agruras do turista americano que resolveu visitar a Turquia, e, na volta, delicadamente, trazer souvenir em formato de tablets de haxixe. Ele se dizia estudante.
Uma vez preso, o anti herói foi jogado na penitenciária onde imperavam violência, o suborno e a insanidade: como em todas as penitenciárias. Nenhuma novidade até aí. Tentam o suborno das autoridades legais para livrar o rapaz. Até aí nenhuma novidade.
Onde a ficção fílmica reflete a verdade e onde mostra mentiras e omissões, como aconteceu no filme Argo recentemente.

Na Indonésia o brasileiro Archer se deu mal. Cumpriu-se lá a bárbara lei deles. Sim, por que matar pessoas é coisa de bárbaros. Longe de mim defender a pena de morte e isso aqui não se fará,  inda mais em relação a drogas; sabemos que as há lícitas e ilícitas. As pessoas bebem nas sextas e matam pessoas nas ruas, assassinos bêbedos, e, outros não. Isso é permitido pela lei. Pauta para discussão.
De qualquer forma um exército de honestos e idôneos, nas redes sociais, teceram loas ao sistema da Indonésia, enquanto fumavam ou bebiam ou jogavam. Dois pesos.
Doenças oriundas do tabagismoconsomem 20% dos recursos da saúde. Tabagista até posa para a foto com charme e panache. Tá valendo.
Contudo, meus botões perguntam, será que os dez anos de prisão do brasileiro Archer já não seriam punição suficiente? Tem que matar, mesmo? O prazer é esse? Pois, educação não é.
Não faltarão, no filme, as reviravoltas americanas amplamente copiadas pelas novelas tupiniquins. O leitor as conhece bem: quando chega na última hora de alguma cena que..., quando a coisa está prestes a..., quando a mocinha consegue escapar do..., a reviravolta vem e leva a roseira pra lá. O anti herói percebe que tem dois caminhos e o Expresso da Meia-Noite é um desses caminhos. Mas a reviravolta reaparece, muda a conversa, os rumos do filme, e leva a viola pra lá.
Foi fuzilado na prisão de Nisakambangan, 10 anos após ser condenado à morte por tráfico internacional de cocaína; cremado, suas cinzas foram entregues à tia Lourdes. Parente, única, que o acompanhou. Lourdes saiu de Manaus, rumo à Indonésia, para se despedir do sobrinho e atender ao último desejo dele: tomar whiskey e comer bacalhau. Prosaico.
Susan, a namorada, chega para uma visita e consegue que nosso anti herói volte à realidade através de meios masturbatórios. No filme isso parece ser suficiente para resolver a questão da loucura e da solidão.
O jornalista disse que Marcos levou um tiro de misericórdia no peito, morrendo na hora. Ele e mais quatro prisioneiros executados foram amarrados em uma estaca antes do fuzilamento. Para tudo um protocolo e burocracia.
AlanParker (Bugsy Malone, Evita) procurou enfatizar a violência, a corrupção e a falta de humanidade que reinava na prisão turca. Na prisão americana, porventura, eles seriam felizes e ditosos?
Nosso anti herói, visto com olhos de plateia, por nós, idôneos cinéfilos, é mártir inocente; contudo, nós mesmos vomitamos ferocidade pelo feicebuqui gritando que Marcos Archer devia morrer por ser criminoso, traficante, bon vivant. O americano foi tomado como herói, e, o brasileiro como criminoso mesmo. Diferem aí a ficção e a realidade ou tudo é esquizofrenia?
O cinema, interpretando a realidade, tem liberdade poética excessiva.
O cinema americano – apoiado por grandes aglomerados judeus – está apoiado, também, em mísseis nucleares que estão no quartel ao lado. Podem muito bem detonar os turcos. De longe. Exocet. E, recebem Oscar, por isso.
Marcos Archer fora flagrado em 2003 com 13,4 quilos de cocaína nos tubos do equipamento de asa delta, no Aeroporto de Jacarta; driblou policiais; protagonizou fuga cinematográfica, viajou de ilha em ilha, chegou a Bali, foi preso. Ele vivia por ali já havia quinze anos.
O filme é repleto de cenas fortes, chocantes. Os principais atores têm atuações marcantes, é verdade, principalmente John Hurt (Homem Elefante, 1984). Só essa dica de John Hurt já é a dica definitiva.
A trilha tem base na musica oriental, mas, segue a moda pop da época. Moroder é um modinheiro com bateria eletrônica.
O plano do anti herói – de sair com haxixe - não dá certo e ele é preso no aeroporto. Brutalmente espancado é lançado na prisão degradante. Quem viu 50 TONS gostará dessas surras. O filme é baseado em livro do americano Billy Hayes, o anti herói que escreveu sobre si mesmo e vendeu à beça. Ele até fez uma ponta no filme. Fez sucesso. Marcos Archer não teve tempo de escrever e lançar seu livro. 
Parker rodou o filme em Malta, pois, evidentemente, as autoridades turcas não dariam permissão para filmar na Turquia, que desmentiu tudo aquilo. Potocas americanas.
O Expresso da Meia-Noite foi sucesso de bilheteira.
E SE FOSSE TUDO MENTIRA?
Mas, no livro, não há violência física e sexual e o final está deturpado. Isso tem mesmo nome de liberdade poética ou é a mera busca pelo mercado a todo custo? Vale a pena ler e ver. Compare.
Todavia, em 2004, o escritor Hayes disse: O Expresso da Meia-Noite – o filme dele mesmo - é um filme mentiroso, blefe, igual a Argo, que também ganhou o Oscar, em que a maioria das cenas é de pura invenção. Tudo invenção. Tudo vitrine. Tudo mercado. Tudo propaganda anti oriente.
Hayes pediu desculpas à polícia turca agora que expirou o mandato de captura pela Interpol. É como se o filme dissesse: "todos os turcos são monstros", em vez de "não sejam idiotas como eu fui e não façam contrabando de droga”.
Agora, cinco anos depois, Hayes quer reparar todo o mal que O Expresso da Meia-Noite fez ao país. Diz que rodará um filme para isso.
O EXPRESSO DA MEIA NOITE Ganhou duas estatuetas Oscar, nas categorias de: roteiro adaptado / trilha sonora. Ganhou seis prêmios Globo de Ouro, nas seguintes categorias: filme – drama / ator co-adjuvante (John Hurt) / trilha sonora / roteiro / revelação masculina (Brad Davis) / revelação feminina (Irene Miracle). Ganhou três prêmios BAFTA, nas seguintes categorias: diretor / ator co-adjuvante (John Hurt) / edição.
Marcos Archer morreu mesmo.
O fuzilamento resolveu alguma coisa? Serviu de lição para que? Para quem?

6 comentários:

  1. Teria algumas observações para fazer sobre o texto mas, prefiro ir na mais "gritante": No parágrafo 12, onde diz "Alan Parker (Intocáveis, Carrie)", há um equivoco. Alan Parker não é o diretor desses dois filmes.Esses filmes foram dirigidos por BRIAN de PALMA.

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  2. Sim... você certo ou certa... Vou lá corrigir. Sobre o texto não há observações. Só há o que é gritante. pode-se debater a tese, mas correções apenas fatuais. Para a imprudência do crédito existe uma explicação, mas, nem vem ao caso. Valeu pelo apontamento.

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  3. O que eu penso, é o seguinte, se aqui no Brasil, a lei é branda, as pessoas acham que no mundo inteiro,é assim, vocês acreditam, que se ele tivesse passado com essa dorga na Indonésia, ele teria se arrependido disso? Só ficou arrependido, por ter sido preso....e outra coisa, nos aeroportos de lá, está bem dito, que entrar com droga no pais, corre o risco de ir para o corredor da morte....ele sabia disso.

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  4. Na minha opinião ELE jogou com a própria vida, ELE sabia que se fosse pego morreria. O que me intriga Marco Antônio é com esse comportamento das pessoas, sabem que estão errados e pagam pra ver, jogam com a própria vida e depois pedem clemência pq estão acostumados com um País que quem tem dinheiro ou conhece pessoas importantes, como é o nosso, não costumam pagar pelos seus erros. Ficam presos um tempinho depois saem por bom comportamento e continuam fazendo coisas erradas e por aí vai. Quem sou eu para julgar alguém mas se todos que erram feio fossem castigados essa situação mudaria, o cara só se arrepende quando os "planos" dão errado e acaba no corredor da morte. Matar alguém não compete ao ser humano mas nem todos convivem na mesma crença e esses Países tem as próprias Leis que são conhecidas no mundo inteiro então a pessoa que teime em desrespeita-las está desafiando esse País e ao mesmo tempo jogando com a sorte e o que é pior a própria vida. Aqui no Brasil se mata por qquer coisa e ninguém faz nada a criminalidade aumenta dia a dia e fica por isso mesmo, será que isso está certo?????? O que será mais certo??????

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    1. Bom... a ideia é falar sobre o filme e usei elementos do Marcos Asher para efeito de comparação. Cigarro, pinga, Globo, são drogas lícitas que ninguém reclama de seus uso. O cigarro traz profundos custos para o financeiro da saúde brasileira. O cara ter morrido não resolveu nada e nem resolverá. Sugiro ainda que você leia o post ou veja o filme, afinal, alguma coisa você tem que fazer.

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  5. O texto pontuou alguns vieses, que deixarei para outros comentaristas. Para mim, no caso do brasileiro, indo um pouco além da discussão favorável ou contrária à pena de morte, existe uma complexidade de soberanias, poderes e políticas internacionais. E é um peso que normalmente, em geral, as pessoas não levam em conta na cotidianidade das redes sociais. As relações entre as nações jogam com vidas e com plateias, e muitas vezes destacam situações sem explicitar todos os pressupostos básicos. Muito difícil deve ser a relação entre os Estados Unidos e o Oriente (e Brasil e Indonésia), talvez simplesmente porque alguns não dos valores, mas das raízes de alguns desses valores, entre os dois mundos, não sejam realmente tão diferentes. Quanto ao filme propriamente dito, agora entendo que deve ter sido dele que surgiram outras produções, posteriores, abordando situações idênticas. Creio que o assunto mereça novos textos, ampliando a discussão, na correlação entre arte e realidade.

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