Resenha: As irmãs e o mar | Lucy Clarke

Título: As irmãs e o mar
Autora: Lucy Clarke
Editora: Rocco
Número de páginas: 352
Classificação:


Kate e Mia são irmãs e protagonistas de uma relação densa e complexa. Kate possui um temperamento mais passivo e voltado para buscar conforto e segurança. Acredita que encontrará a felicidade através de seu relacionamento com Ed, e seu sonho de subir ao altar está prestes a se realizar. Mia tem espírito livre e está totalmente fora do alcance de qualquer amarra, entretanto, seu comportamento explosivo e relapso a levam a uma série questionamentos acerca de si mesma e das expectativas que carrega para o futuro. Lucy Clarke retrata a complexidade dos laços familiares e o modo como cada um lida com as dores do caminho com bastante precisão.

O livro começa retratando a morte de uma das personagens: Mia, em sua viagem repentina pelo mundo. A polícia suspeita imediatamente de suicídio. Mais um choque. Inconformada com tal enxurrada de informações, Kate encontra um diário entre os pertences da irmã e decide refazer cada um dos passos de Mia, a fim de entender o que poderia tê-la levado a acabar com a própria vida e o que a fez a sair de casa sem olhar para trás.
De modo singelo e profundo, as relações humanas evocam os conflitos internos de cada indivíduo para assim compor as teias formadas no contato com o outro. Um dos diálogos marcantes, na minha opinião, se dá entre Mia e Jaz (personagem coadjuvante):
_ Você tem uma irmã? 
_ Tenho.  
_ Então você conhece um pouco sobre o amor e um pouco sobre o ódio. 
Mia abriu a boca para falar, mas voltou a fechá-la. Jez estava certo: às vezes a linha entre os dois sentimentos é tão tênue que é difícil enxergar de que lado se está. [p. 290]


Quem tem a chance de dividir a vida com um irmão sabe o poder que essa outra parte de você tem para despertar o amor, afeto e desejo de proteção; e o quanto paradoxalmente, esse mesmo ser, te conhece o suficiente pra fazer exatamente tudo o que pode para causar dor, mágoa e ódio, por vezes. Mais do que a questão entre irmãos, esse livro traz à tona a humanidade de seus personagens e o dilema que todos sentem em relação ao "e se eu tivesse feito tudo diferente?" e o quanto isso nos aflige diante das escolhas já realizadas. O tempo, sempre implacável, mostra seu poder nessa narrativa.
A fragilidade dos personagens vem à tona em ondas, mostrando que, como na vida, ninguém é mocinho ou bandido o tempo todo. A dinâmica que conduz a trama é composta por pontos de interrogação que se dissolvem à medida que novos questionamentos surgem.
O efeito erosivo do tempo faz lembranças emergirem e transforma expectativas de um futuro sólido em meras projeções. Os tempos verbais se entrelaçam a todo momento, obrigando-nos a continuar remando e se reinventando a cada mudança da maré.
Alguns livros trazem consigo a escolha de sentar na areia e apreciar a obra ou permitir-se mergulhar e sentir a profundidade e os riscos de ser atravessado por uma história. Cuidado pra não se afogar.
_ E onde você é feliz?_ Perto do mar." [p.110]Os marulhos das ondas tornaram-se suaves murmúrios do ser amado.



2 comentários:

  1. Oie
    Não conhecia e esse livro, mas sua resenha me deixou curiosa. A viagem de Kate, refazendo os passos da irmã devem ter feito ela rever muita coisa de sua própria vida...
    Bjs
    sobrelivrosesonhos.blogspot.com.br

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  2. Sabe que tenho a impressão de ter lido um livro com um enredo semelhante?
    Bjs, Rose

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