Crítica: Ben-Hur | Timur Bekmambetov

Ben-Hur (Ben-Hur, EUA, 2016)
Direção: Timur Bekmambetov
Roteiro: Keith R. Clarke
Elenco: Jack Huston, Morgan Freeman, Rodrigo Santoro, Toby Kebbel
Classificação: 

Sinopse: Explorando uma passagem que antecede a história do filme de 1959, acompanhamos a juventude de Judah Ben-Hur e de Messala, seu irmão adotivo. Apaixonado por Tirzah, irmã de Ben-Hur, Messala, sabendo das diferenças de parentesco, nacionalidades e de classe social, decide partir para Roma a fim de fazer parte das legiões romanas em campanha para alcançar o prestígio necessário para um casamento.


Anos depois, Messala retorna à Judeia para conquistar o coração de sua amada, entretanto, tudo dá errado quando Pôncio Pilatos sofre um atentado justamente na rua da casa de Ben-Hur. Conhecendo a sede de sangue de Pilatos, Messala condena toda a família Hur à escravidão. Vivendo por quase uma década nas galés, Ben-Hur jura vingança à Messala por ter destruído sua vida e sua família.

Resenha
Refazer um dos longas considerados como o maior feito do cinema americano é uma tarefa para poucos – algo que certamente a Paramount arriscou muito ao indicar Timur Bekmambetov na direção deste longa. O clássico épico de 1959 brilha com suas três horas e meia de duração para contar a grande história de Judah Ben-Hur. Já com os remakes sendo vistos com maus olhos, do elenco pífio, da redução de uma hora e meia na projeção e com um diretor para lá de duvidoso, algo salva nessa readaptação do clássico? Por incrível que pareça, o filme tem seus méritos.
O longa ganha e perde diversos pontos com as comparações ao clássico de William Wyler, porém, até mesmo em sua estrutura relativamente simples, consegue tropeçar ao burocratizar algumas passagens. A escolha de acompanhar uma dinâmica familiar entre Ben-Hur e Messala certamente é um dos pontos altos do filme, mesmo que se valha de clichês já há muito ultrapassados, além de pesar a mão na típica psicologia do oprimido – que se torna agressor, gradativamente – e abusar muito da exposição gratuita para fazer o espectador entender o emaranhado de personagens.
Justamente, por cortarem uma hora e meia de desenvolvimento textual, essa relação acaba prejudicada graças à pressa que o diretor conduz o longa. Todavia, é inegável que se trata de uma sequência inicial competente para estabelecer diversos conflitos, relações, motivações, ideologias e personagens – mesmo que quase tudo isso não seja desenvolvido apropriadamente.
Graças a essa grande pressa do primeiro ato, introduzindo elementos além da conta, diversas atitudes de Judah acabam não fazendo o menor sentido, pois contradizem suas palavras a todo momento. O personagem é ao mesmo tempo egoísta e altruísta, pessimista e otimista, uma verdadeira bagunça – no filme de Wyller, todos os personagens são muito bem resolvidos.
Além de todo esse grande problema envolvendo a família Hur e Messala, os roteiristas ainda tentam inserir o núcleo dos zelotes, uma seita que se rebela contra a dominação romana e de suas campanhas de expansão. Ainda, nisso, há alguma discussão sobre o papel romano civilizatório e da alienação promovida pelo “pão e circo”, elementos ausentes no filme de 1959. Seria ótimo, caso não fosse apenas uma muleta de roteiro para justificar o destino da família Hur, além de ser um núcleo apressado que aparece, some e reaparece do nada. Ao menos, no clímax do longa, os roteiristas conseguem criar um retrato cômico explorando toda a hipocrisia de grupos que seguem “fortes” ideologias.
Infelizmente, o texto da dupla de roteiristas passa a contar muito com o acaso e na simplificação dos personagens na segunda metade do filme. Ben-Hur vira um retrato ambulante do ódio e da vingança, sua esposa Esther reaparece na trama com facilidade, além de diversos outros acontecimentos importantes surgirem espontaneamente sem a menor conexão narrativa necessária para fazerem sentido. Messala também se torna uma figura antagônica muito simplificada perto do conflito e da introdução que eles haviam apresentado no início do longa.
Entretanto, nenhuma das rasas situações e da pressa inabalável da segunda parte consegue superar a tremenda mediocridade que banha o apressado epílogo que é totalmente diferente da versão de 1959. Atende um chamado utópico e da necessidade contemporânea de finais açucarados para blockbusters. Ou seja, sim, o filme perde parte da essência da mensagem do clássico.
Porém ainda se trata de “um conto de Cristo”. Dessa vez, abandonando a sutileza de Wyller em tornar Jesus uma figura quase ausente em 1959, Bekmambetov usa o personagem de modo mais incisivo tendo maior participação na história. Ainda há as passagens clássicas dos encontros de Ben-Hur com Jesus, porém o primeiro contato serve apenas para mostrar a descrença de Judah nas palavras do filho de Deus – algo que, novamente, não casa com as decisões do protagonista nos momentos decisivos.
Ao longo do filme, outros relances de cenas com a participação de Cristo surgem, além de outros personagens do filme orbitarem a importância de sua figura. Aliás, alguns conflitos também têm origem por conta dessas novidades. Mesmo que interessantes, é curioso como tudo se resolve em passes de mágica, sem a menor vontade ou esforço do time roteirista, além da filosofia do desapego que os personagens parecem seguir – principalmente entre Esther e Judah.
É evidente que Timur Bekmambetov não é nenhum William Wyller. Contando apenas com o bom O Procurado e o abismalAbraham Lincoln: Caçador de Vampiros como grandes projetos, a escolha de seu nome não poderia ser mais inusitada e bizarra, afinal Ben-Hur deveria ser um projeto para diretores mais contemplativos, de bons dramas, fugindo bastante da vertente da ação descerebrada de Bekmambetov.
Dito e feito, enquanto as duas grandiosas sequências de ação brilham e marcam os pontos altos desse filme, todo o necessário desenvolvimento das cenas dramáticas falha miseravelmente. A abertura do filme já sofre com o estilo frenético de decupagem repleto de shaky cams, as famosas câmeras tremidas em seu próprio eixo. Bekmambetov, nesse primeiro segmento, também tem uma mania bizarra de enquadrar elementos totalmente alheios à ação da cena para fazer um falido ponto de corte.
Nesse ritmo intenso de decupagem e bombardeio visual, raramente Bekmambetov segura os planos do longa por mais tempo gerando algum momento de contemplação – mesmo que o filme exija isso. Toda a elegância cinematográfica, a escala colossal dos enquadramentos fantásticos auxiliados pelo filme Super 70, o ritmo memorável de diversas cenas do clássico de 1959 se perdem nas mãos do remake.
Entretanto, quando finalmente as duas grandiosas sequências de ação aparecem, Timur Bekmambetov consegue mostrar o que faz de melhor. Toda a sequência das galeras é visceral, com tons adequados da fotografia, além da escolha muito interessante de diversos pontos de vista que o diretor utiliza para construir o primeiro ponto alto de seu filme. É particularmente muito interessante a escolha de toda a ação externa, das guerras entre as galeras, nunca ser mostrada devidamente. Acompanhamos tudo a partir dos porões onde os escravos são confinados aos remos.
O resultado final é absurdamente fantástico.A histórica sequência do clímax, da corrida das bigas de William Wyller ainda se sustenta até hoje. O ritmo da montagem é adequado, a ação é estupenda, a decupagem perfeita e os efeitos visuais impressionantes. Talvez, somente por ela, já renderia os merecidos onze Oscar. Logo, a expectativa para ver como essa mesma sequência seria feita em 2016 e todo o poderio tecnológico possível era imensa.
Como o trabalho de Wyller é plasticamente perfeito, Bekmambetov consegue, ao menos, criar uma sequência tão boa quanto. O diretor recusou os efeitos visuais e apostou na exuberante quantidade cavalos reais em cena. É uma grandiosa cena que merece ser vista na melhor tela possível – indico o IMAX. O diretor fez o sequenciamento visual de modo excelente, respeitando as lógicas do jogo. Ainda temos os cavalos pretos de Messala correndo contra os cavalos brancos de Ben-Hur.
A tensão é envolvente, a violência continua a impressionar, os efeitos sonoros e de mixagem, impecáveis. A sequência do remake não deve nada para o clássico de 1959. Enquanto Bekmambetov impressiona com a ação estupenda do longa, ele praticamente esquece o trabalho com o elenco que é verdadeiramente péssimo.
O protagonista, Jack Huston, até que consegue segurar o filme, mas também parece perdido com as decisões incoerentes que Ben-Hur toma a todo momento. Rodrigo Santoro faz Jesus no piloto automático apostando em olhares caramelizados e expressões de serenidade. Já Toby Kebbel tem a pior performance com Messala, um personagem que exige atuações fortes que o ator não entendeu muito bem. Dos coadjuvantes, Pilou Asbaek é o pior com seu tosco Pôncio Pilatos. Assim como Santoro, Morgan Freeman reprisa papéis anteriores mantendo apenas uma postura mais austera com seu Ilderim.
O novo Ben-Hur funciona perfeitamente bem apenas como entretenimento descartável e comum, apesar de suas duas sequências de ação espetaculares. A pressa em contar uma história gigantesca prejudicou toda a narrativa deste remake que busca modernizar ao inserir diversos temas que não eram abordados na versão de 1959.
Com toda essa pressa, eventos que atropelam uns aos outros, além das soluções arbitrárias dos roteiristas, a grandiosa jornada de Judah Ben-Hur toma ares de telenovela, sem impressionar ninguém com seu desfecho açucarado. Se tivessem levado o projeto mais à sério, tendo escolhido nomes verdadeiramente importantes para conduzir o filme, talvez teríamos um clássico moderno e não apenas esse bom filme que somente se sustenta graças a força do livro de Lew Wallace e de suas grandiosas cenas de ação.

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