Crítica: Manchester à Beira-Mar

Título: Manchester à Beira-Mar (Manchester by the Sea)
Diretor: Kenneth Lonergan 
Roteiro: Kenneth Lonergan
Elenco: Casey AffleckMichelle WilliamsKyle ChandlerLucas Hedges
Classificação:   Nenhum texto alternativo automático disponível.
Sinopse:
A trama acompanha o personagem Lee (Casey Affleck), um zelador introspectivo que trabalha em Boston, mas que precisa voltar à sua cidade natal (Manchester by the Sea) ao receber a notícia de que seu irmão Joe (Kyle Chandler) está em estado grave de saúde. A partir daí Lee entra em contato com aspectos do seu passado que preferia esquecer enquanto precisa lidar com a questão da guarda do seu sobrinho Patrick (Lucas Hedges).



                                         
                                                      Crítica

A vida em sociedade é espinhosa. Quanto mais envelhecemos mais acumulamos anos e anos de decepções, feridas, traumas e frustrações. Por mais que o tempo seja poderoso em nos fazer esquecer certas mágoas e superar certos sofrimentos, há aspectos dolorosos das nossas vidas que parecem intransponíveis e, como tal, acabam sendo apenas varridos para debaixo do nosso tapete emocional. A convivência com a coletividade nos ensina a lidar com esses sofrimentos latentes e disfarçar nossas próprias rachaduras diante do outro; sorrindo, acenando, conversando casualidades e praticando performances calculadas com o intuito de tornar o convívio humano mais palatável. Apesar disso, às vezes a rotina da superficialidade se dissolve, e damos vislumbres involuntários de nossas aflições, são nesses momentos que evidenciamos o quanto somos criaturas frágeis e imaturas, e o quanto a comunicação real e verdadeira entre seres humanos é uma façanha surpreendente que beira o intangível. Manchester a Beira Mar (de 2016, dirigo por Kenneth Lonergan) é um filme que aborda estas questões.

A leitura da sinopse pode passar a impressão natural de que se trata de um filme sobre luto e família – mais especificamente sobre paternidade – e embora estes sejam aspectos presentes no longa, este se revela como uma obra muito mais rica. Manchester a Beira Mar é acima de tudo um drama de comunicação. Um estudo sobre o conflito interno de cada pessoa entre aquilo que expressamos no cotidiano social e aquilo que sentimos verdadeiramente.  

Estes conflitos são apresentados de forma eficiente através do belíssimo roteiro, também assinado pelo diretor. Lonergan passeia pelo cotidiano e pelo dramático sem ceder a conflitos maniqueístas e grandes momentos catárticos, apostando num tom realista que não só legitima como aumenta o impacto dos momentos mais comoventes da narrativa. Assim, vemos inúmeras cenas de discussões e brigas entre o Lee e o Patrick, por exemplo, que começam e terminam sem nenhum alarde, retomando em seguida a dinâmica normal do relacionamento entre os dois de forma quase banal, porém convincente devido ao seu caráter naturalista. Não há uma ostentação de conflitos em busca de emoções fáceis e é admirável que o filme ainda encontre espaço para momentos de humor e ironia em situações tão cotidianas.

A dinâmica realista entre Lee e Patrick é o que carrega a maior parte do filme

Do mesmo modo, os pequenos desconfortos e constrangimentos das relações humanas são apresentados de forma sútil e certeira, como na cena em que o Patrick visita a sua mãe (Gretchen Mol) depois de um longo período de afastamento e vemos as tentativas desesperadas desta em fazer com que seu filho sinta-se a vontade em sua nova casa. As pequenas angústias e anseios sociais borbulham nos diálogos que na maioria das vezes se atém ao prosaico.

O roteiro também merece créditos pelo senso de ritmo e pela excelente estrutura. O uso de inúmeros flashbacks de forma brusca no meio da narrativa, apesar de inicialmente causar desorientação, acaba se mostrando positivo ao obrigar o público a redobrar a atenção no que está vendo e a decodificar a cronologia da narrativa por conta própria, funcionando como pequenas “recompensas” intelectuais que mantém o filme instigante. Além disto, a montagem é muito elegante em determinar em que momentos estes flashbacks acontecem na narrativa, enriquecendo bastante o impacto dramático do filme. Em determinado instante, por exemplo, é apresentada uma informação vital sobre o passado do Lee que obriga o público a reavaliar tudo que pensava sobre o personagem até então, e traz a tona novas interpretações para a trama e para o relacionamento dos personagens.

Expressões contidas porém carregadas de mágoas dão o tom da performance de Casey Affleck

Mas o que torna o roteiro tão memorável são mesmo as atuações. Casey Affleck compõe Lee como um sujeito sempre encurvado, com as mãos nos bolsos e evitando contato visual. Cada palavra parece necessitar de um esforço descomunal para ser pronunciada pelo personagem e os olhares cansados parecem sempre carregados de mágoas. É uma atuação contida e minimalista, porém com um magnetismo que fascina e acaba saltando na tela. Por outro lado, Lucas Hedges foge do estereotipo fácil do adolescente revoltado que perdeu o pai e apresenta Patrick como um jovem cheio de amigos e namoradas, ativo e otimista, mas com um verniz suave de insegurança e dor. O elenco secundário também está uniformemente competente, com destaque para a Michelle Williams que interpreta Randi, a ex-esposa de Lee. Uma cena onde estes dois personagens se encontram depois de muito tempo é especialmente extraordinária, e serve como uma aula de atuação e um exemplo brilhante de como criar personagens realistas e profundos através de diálogos pouco ortodoxos. As tentativas desajeitadas dos dois em comunicar coisas que são delicadas e dolorosas demais para serem expressas verbalmente resultam em uma serie de balbucios e frases desconexas que parecem tatear desesperadamente a procura de algum apoio emocional, e a angústia apresentada pelos atores é tão real que acaba tornando a cena assustadora. A impossibilidade de comunicação e a impotência dos personagens diante das suas feridas passadas são duras, e acabam gerando o momento mais tocante do filme.

A dificuldade de comunicação e de expressão é o que dá carga dramática ao filme

Por outro lado, o uso da trilha sonora não tem esse mesmo cuidado e sutileza. Em alguns momentos a música é empregada de forma inteligente, abafando todos os outros sons da cena, inclusive os diálogos, evidenciando como as palavras ditas são irrelevantes perto dos conflitos subjacentes ou das atitudes dos personagens, em outros, porém, aparece muito intrusiva e exagerada, buscando gerar uma carga dramática adicional para cenas mais importantes, o que é desnecessário, uma vez que as brilhantes atuações e o roteiro são mais que suficientes para isso. O resultado final acaba sendo o contrário; a trilha acaba diminuindo o impacto de alguns momentos, uma vez que divide a atenção com as performances dos atores e anula o peso precioso que alguns silêncios poderiam ter.

Mas são apenas pequenos momentos onde a direção envolve o filme nessa pompa exagerada, em sua essência Manchester a Beira Mar preza pelos seus personagens realistas vivendo seus dramas cotidianos, e por mais que existam acontecimentos trágicos na vida de cada um deles – e existem mesmo - são nos pequenos momentos ordinários e nas interações banais entre os mesmos que reside a riqueza da obra. Pois mesmo que nunca tenhamos experimentado uma perda muito dolorosa ou uma tentativa fracassada de reconciliação com o passado, podemos nos identificar com o esforço de ter que manter uma fachada sobre nós mesmos ou com o constrangimento de não conseguirmos retribuir o peso de um olhar.

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