Resenha: A História de Malikah | Marina Carvalho


Título: A História de Malikah
Editora: Globo Alt
Autor: Marina Carvalho
Número de páginas: 336
Classificação: Nenhum texto alternativo automático disponível. Nenhum texto alternativo automático disponível.

Sinopse: Malikah foi escravizada e trazida da África ao Brasil ainda criança. Aqui, ela sofreu as mais diversas formas de violência, especialmente depois de ter engravidado de Henrique, o filho de seu patrão. Apesar da gravidez ser fruto de uma relação de amor, ela foi castigada e teve que fugir até encontrar abrigo em uma fazenda onde os negros já podiam viver em liberdade. Nessa nova terra, Malikah pode morar em paz com seu filho, mas, apesar de sua relutância, Henrique continua por perto, arrependido por não tê-la protegido e tentando se aproximar da criança. Mesmo ainda sentindo algo por ele, como ela conseguirá perdoar alguém que representa tantos anos de injustiça e sofrimento?


 Resenha

Malikah e Henrique se conhecem desde pequenos e o vínculo de amizade entre os dois é intenso mesmo em meio a tudo que poderia separá-los. Ela, trazida forçadamente da África para ser escravizada junto com a mãe, tem seus sonhos de menina massacrados pela crueldade daqueles que subjugam outros pela cor da pele. Henrique, por sua vez, enfrenta a dureza do pai, a influência torpe de um homem ganancioso que não pensa nos sentimentos da esposa e do próprio filho. O escape de Malikah e Henrique é a amizade que cresce ao longo dos anos e o amor que surge quando ainda são adolescentes. Contudo, quando Euclides percebe que o filho está muito mais próximo da jovem negra Malikah do que gostaria, tenta afastá-los. Mas as tentativas são frustradas, pois o elo que os une é muito maior.

Mas, mesmo ainda sendo muito nova, entendia que estava fadada a viver para sempre naquele novo lugar, sem perspectivas, sem sonhos, sem futuro.

Imersos em seus sentimentos, Malikah e Henrique se entregam ao amor, mas o fruto dessa relação faz com que Euclides lute a todo custo para separar o casal. Será que o pequeno Hasan e o amor entre Malikah e Henrique conseguirão vencer tudo que se opõe à relação?


Ela não cansava de se perguntar e de questionar aos companheiros de cárcere o porquê de tamanha desumanidade. "O que nos difere, a não ser a cor?"
Neste livro, acompanhamos os mesmos personagens de O Amor nos Tempos do Ouro, amando ainda mais todos eles, mas quem ganha destaque é o casal Malikah e Henrique. Não é necessário ter lido o primeiro livro para compreender o enredo e os acontecimentos de A História de Malikah, mas para mim foi especial porque pude reafirmar o quanto amei cada detalhe da história, a maneira como Marina Carvalho escreveu e nos mostrou personagens tão bem construídos, com uma história que nos faz revisitar o passado do nosso país.


Por um momento, a despeito dos tons que coloriam a pele dos dois, ela sentiu que eles eram iguais: apenas crianças, à mercê dos desígnios do destino, sem norte, sem vontades nem explicações.
Durante a narrativa, nos deparamos com o passado e o presente da vida de Malikah e Henrique, uma história de amor marcada pela maldade, mas que vai sendo reescrita enquanto conhecemos mais nuances do casal. No primeiro livro, embora Malikah e Henrique sejam personagens constantes, percebemos apenas a mágoa nela e a influência sofrida por ele. Agora, no entanto, vemos as marcas do passado de cada um, as dores que carregaram na infância, as perdas e as maldades que sofreram. Malikah e Henrique, mesmo sem querer, passam a crer que, por serem diferentes, o amor entre os dois é quase como um pecado. A maldade e a ganância, por um momento, os fazem achar que é errado negros e brancos se envolverem, se amarem. Ainda assim, desde pequenos o vínculo entre ambos é tão grande que supera qualquer coisa.


A mulher que se tornou era o conjunto de tudo por que passou ao longo da vida, de cada sofrimento às pequenas alegrias. Manter essas lembranças, embora dolorosas, era vital para a sua sanidade.
Euclides, dono da Fazenda Real e pai de Henrique, tem grande destaque nesse livro, assim como no anterior, mostrando que sua maldade não tem freios. Mesmo com os problemas de saúde, ele se mantém preso às crueldades, atrapalhando a vida dos nossos queridos personagens para nos fazer sentir raiva e torcer para que, ao final, tudo dê certo. Além dele, personagens novos também surgem na narrativa e o pequeno Hasan, filho de Malikah e Henrique, nos mostra que é possível superar a dor do passado, perdoar, saber que todos são humanos e falhos, mas que sempre podem recomeçar.


Ele se lembrava de tudo: de como os dois eram perfeitos quando estavam juntos, do amor, que, mesmo não alardeado em voz alta, podia ser sentido — um sentimento que ele pouco desfrutara na vida depois da morte da mãe.

Achei linda a maneira como Henrique luta para reconquistar Malikah, para mostrar à mulher que o amor deles é real e que nenhuma diferença pode impedir as pessoas de conviverem e se amarem. A História de Malikah é tocante porque nos mostra que o amor verdadeiro não morre, que em meio a toda dor algo especial pode surgir. 


Claro e escuro. Branco e preto. Certo e errado. Henrique e Malikah.

Somado a isso, achei que Marina Carvalho deu visibilidade não apenas ao casal, mas também a importância de combatermos o racismo e qualquer tipo de preconceito, além de mostrar detalhes da cultura africana, enaltecer um povo que foi cruelmente subjugado e que, infelizmente, ainda tem suas raízes esquecidas. Fiquei muito emocionada, consegui sentir tantas coisas com a leitura que, para mim, ainda é difícil definir com palavras a grandiosidade da história. Já li outros livros da Marina, mas acho que com O Amor nos Tempos do Ouro e A História de Malikah ela conseguiu tocar profundamente no coração de cada leitor. Marina, concordo com a sua mãe e sou grata por ela ter te incentivado a escrever esta sequência.


No entanto, ter acesso à dor de Henrique naquele momento minimizou um pouco sua própria dor. Agora ela era Malikah, não Ana, não escrava; gente, não bicho. E ele? Um homem consumido por uma enorme bagagem de culpa. 

Detalhe importante: já sonho com mais uma sequência, desta vez com o futuro de Bárbara e Hasan, pois shippo fortemente os dois como um casal. Preciso falar também que há quotes maravilhosos no livro!


— Vivemos em um mundo injusto e cruel, querida, onde seres humanos subjugam seus semelhantes sem remorso. A maioria dos brancos é doutrinada desde cedo a acreditar que pessoas de outras raças são inferiores.

Por motivos óbvios, não contarei os detalhes do livro porque acredito que todo mundo que gosta de um bom romance, especialmente se for de época, precisa ler esta preciosidade. É um dos melhores livros que já li e não canso de dizer o quanto é bom ver um romance de época genuinamente brasileiro, porque nossa história foi marcada por muita luta, opressão e busca por liberdade, o que merece destaque total. Tenho certeza de que, ao ler este livro, será impossível esquecê-lo. É uma história que nos toca a alma e nos deixa com gostinho de quero mais.

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