Crítica | A Vida Invisível

Título: A Vida Invisível
Direção: Karim Aïnouz
Roteiro: Murilo Hauser, Inés Bortagaray e Karim Aïnouz
Elenco: Carol Duarte, Julia Stockler, António Fonseca, Flávia Gusmão, Gregório Duvivier, Bárbara Santos, Nikolas Antunes e Maria Manoella

Classificação: 


Sinopse: Rio de Janeiro, década de 1940. Eurídice (Carol Duarte) é uma jovem talentosa, mas bastante introvertida. Guida (Julia Stockler) é sua irmã mais velha, e o oposto de seu temperamento em relação ao convívio social. Ambas vivem em um rígido regime patriarcal, o que faz com que trilhem caminhos distintos: Guida decide fugir de casa com o namorado, enquanto Eurídice se esforça para se tornar uma musicista, ao mesmo tempo em que precisa lidar com as responsabilidades da vida adulta e um casamento sem amor com Antenor (Gregório Duvivier).


Vencedor do prêmio Um Certo Olhar em Cannes e representante do Brasil no Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, A Vida Invisível é um melodrama lindamente filmado e emocionalmente duro


Um “melodrama tropical” é como os materiais de marketing vendem o filme. A Vida Invisível já faz jus à esta descrição nos primeiros minutos de projeção, quando o diretor Karim Aïnouz abre a narrativa com planos gerais trazendo paisagens da vegetação da floresta tropical em contraponto com a costa rochosa na margem do Rio de Janeiro dos anos 50, fotografadas em tons surpreendentemente vívidos pela francesa Hélène Louvart e acompanhadas pela trilha intensa do compositor Benedikt Schiefer.

As texturas lustrosas, as cores saturadas e os sons exuberantes de A Vida Invisível servem para intensificar a intimidade desta bela obra sobre mulheres cuja independência de espírito permanece inalterada mesmo quando seus sonhos são destruídos por uma sociedade patriarcal sufocante. Adaptado a partir do livro homônimo de Martha Batalha, o roteiro escrito a seis mãos se baseia em uma separação comovente que causa décadas de desejo e perguntas sem resposta. Duas irmãs inseparáveis sendo forçadas a viver separadas em uma sociedade regrada por um machismo nocivo e desenfreado.

A separação de Eurídice (Carol Duarte), de 18 anos, de sua irmã Guida (Julia Stockler), de 20, é prenunciada quando elas se perdem de vista na floresta enquanto voltam para casa no momento em que uma tempestade se aproxima. O pai autoritário Manuel (António Fonseca) e a mãe submissa Ana (Flávia Gusmão) gerenciam uma casa reacionária, mas as jovens lutam para construir uma vida para si mesmas. Eurídice relutantemente acoberta as fugas noturnas de Guida para dançar em casas noturnas com o marinheiro grego Yorgus (Nikolas Antunes). Guida, por sua vez, incentiva as esperanças de Eurídice, uma talentosa pianista, de estudar no conservatório de música de Viena.

O laço entre as irmãs é lamentavelmente cortado quando Guida foge com seu namorado em um navio com destino a Atenas, deixando uma carta na qual ela promete retornar depois de se casar. Mas Yorgus acaba se revelando um mulherengo, então Guida retorna da Grécia solteira e grávida. E em uma cena emocionalmente devastadora, ela é renegada por seu pai, enquanto sua mãe permanece impotente. Quando Guida implora para ver sua irmã, Manuel diz que Eurídice partiu para estudar na Áustria, uma mentira que parece ainda mais cruel, à medida que percebemos o quão distante deste sonho está a nossa aspirante a pianista.

Na verdade, Eurídice se casou com um homem desprovido de atrativos chamado Antenor (Gregório Duvivier), cuja ideia para a consumação do casamento na noite de núpcias é no mínimo inaceitável. E, apesar de seus esforços para evitar engravidar antes da audição no conservatório, ela logo se vê esperando um filho. Enquanto isso, Guida dá à luz um filho e é acolhida pela ex-prostituta Filomena (Bárbara Santos).

Em um dado momento dos 139 minutos de duração de A Vida Invisível, o novo filme de Karim Aïnouz começa a ficar arrastado, mas felizmente o cineasta é hábil em nos manter envolvidos na maior parte do tempo. O diretor cria no espectador um senso de declínio emocional e de tristeza crescente, utilizando-se da textura visual do filme como ferramenta para transmitir a profundidade de suas personagens principais.

Aliás, o roteiro escrito pelo próprio cineasta ao lado de Murilo Hauser e Inés Bortagaray é inteligente ao não se interessar em cenas e diálogos expositivos para amarrar a estrutura temporal do filme, optando por progredir no tempo apenas com as datas das cartas não entregues de Guida, identificando os anos que se aproximam.

Seguindo o espírito novelístico do material original, o longa se beneficia com as ótimas performances de Carol Duarte e Julia Stockler, além de uma pequena e adorável participação da sempre hipnotizante Fernanda Montenegro. Seu rosto aos 90 anos é um magnífico retrato da humanidade, da experiência emocional e, nesse papel, da dor suposta. Em um filme de grandes gestos emocionais, a riqueza das composições é inteiramente apropriada.

A Vida Invisível é uma faca no peito e eletrodos no cérebro. Você termina o filme com a sensação de ter realizado dez rounds em luta com o atual detentor de cinturão do UFC – não sei qual categoria de peso seria mais apropriada aqui. E você nunca, nunca quer assistir isso de novo. No entanto, se você está com disposição para esse tipo de filme, você não pode escolher uma obra cinematográfica melhor.

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