#SessãoDaMeiaNoite - UMA CRÍTICA SOBRE TROIA


UMA CRÍTICA SOBRE TROIA
direção: Wolfgang Petersen
produção: Wolfgang Petersen / Diana Rathbun
elenco: Brad Pitt / Eric Bana / Orlando Bloom / Diana Kruger / Brian Cox / Julie Christie
Música: James Horner
2004 - 160'

Inspirados, provavelmente na ignorância de sua plateia, os produtores de cinema teimam em manchar clássicos e obras magnas sem qualquer critério de revisão bem feita. Não direi que não se deva interpretar obras, principalmente, quando não temos as diretrizes do autor. É bem lícito. Mas as bobagens roliudianas só servem para aumentar os lucros da bilheteria. Aí vale qualquer coisa. Por isso, segundo os créditos, Troia, o Filme, foi baseado na obra de Homero “A Ilíada”. Troia é Ílion. Mas, não foi bem assim.
Vemos, claramente, que é um filme de médio orçamento - meros 150 milhões de dólares - podendo facilmente ser classificado como Filme B, tirando o salário de atrizes e atores. No caso, os atores, mais caros que as moças.
É diversão para a sessão da tarde.

Filme simplório, dotado de texto básico e fútil, bem ao estilo da Metrópole, apesar de carregar algumas mensagens (torpedos?) na direção do velho e falecido Bush, como quando Aquiles fala para Agamêmnon de que um dia viria em que os Reis lutariam, por si mesmos, suas próprias guerras. Não deixa de ser uma boa tirada.
Contudo, nada disso se encontra em Homero, o rapsodo original. Além do mais o Peleu, falou de bobeira, pois trata-se de coisa que nunca acontecerá.
Meio faroeste é a cena em que Heitor – herói bondoso e justo -  manda que os exércitos carreguem da cena de guerra os seus mortos, e, o ajudante pergunta: “Será que fariam o mesmo conosco?”. A cara que Heitor faz – bom moço – é como se dissesse: -  “ E eu sei lá? Acho que não. Esses gregos são tão maus.” A plateia, claro, torna-se troiana imediatamente.
As liberdades em relação à obra de Homero são várias e gritantes e aborrecidas. O livro original tem tanta violência e sangue que já basta por si. Dá bem para filme de aventuras, aliás, é a origem de todos os filmes de aventura e, de quebra, origem das Olimpíadas-  e nesse sentido é perfeito. Na verdade, nem seria necessário que o roteirista se servisse da obra do poeta cego. Inventaria outra, no mesmo molde e estilo, como tantas já existentes pelo mundo do cinema. Talvez pretendesse gerar justificativa intelectual para o filme. Mas, a cada canto – ou capítulo - Homero também é chegado a ganchos, como nas novelas e está aí um aprendizado necessário.
Curioso é que no filme subtraíram Cassandra – a profetisa troiana.  Ela tem mais “panache”, maior carisma, do que a mocinha Briseida. Além disso Cassandra é a mulher que tem tino para aconselhar os troianos: -  que não levassem o tal cavalo para dentro da cidade. Quem, em sã consciência, vendo um cavalo de pau parado em frente à sua casa o pega e o leva para dentro da mesma casa, sem mais nem menos? E, olha que os Troianos achavam a Cassandra meio amalucada.
Outro lance importante: Por que suprimir o sacrifício de Ifigênia – filha de Agamêmnon – sacrifício ordenado pelo próprio pai para aplacar a ira dos deuses e garantir vento para que a gigantesca esquadra cruzasse o mar? Se mantivessem a cena do sacrifício, Agamêmnon se tornaria, aos olhos do público, como um terrível e sanguinário general, elevando o grau de horror em relação à ele. Todos nós torceríamos para que morresse no final. Mas, Agamêmnon é muito respeitado pelos seus seguidores. Só não topa muito o tal semideus Aquiles Peleu, rapaz independente e arisco. E eu me pergunto: “Agamêmnon? Pra que a pressa? Ílion não sairia do lugar, mesmo... era só esperar o vento certo”. Seria melhor diminuir o número de batalhas ou mesmo a cena do treino entre Aquiles e o íntimo – muito íntimo - primo e investir na cegueira política de Agamêmnon.
Tirante o salário do Brad Pitt, que foi alto, vemos que tudo foi filmado em locação, numa praia, sem maiores adornos e construções, além daqueles já ruinosos dos templos a Apolo. O resto – a multiplicação de soldados e as construções em imagens virtuais, provavelmente, hoje, um produto muito barato na indústria cinematográfica americana. A maior parte do orçamento, com certeza, estava relacionada com o processo de distribuição e divulgação do Filme Troia, que fez sucesso.
Um argumento usado pelos críticos era de que a ação se focalizava nos humanos, eliminando a participação dos deuses. Puro engano. Ledo e Ivo engano. Os deuses, na Ilíada de Homero, são virtudes e qualidades que os humanos tomam para si a cada momento. Nada mais. Hoje em dia fazemos o mesmo quando dizemos: “Ele escapou, do acidente, por um triz. Graças a São Cristóvão, nada lhe aconteceu!”. São Cristovão é o triz do problema. Da mesma forma os gregos já o faziam naqueles tempos.
Quando Paris – também chamado de divino Alexandre - luta com Menelau, filho de Atreu e aluno de Apolo, Menelau o toma pelo capacete e o rapaz escapa por que a fita de couro arrebenta. No texto de Homero aparece como se Atena arrebentasse a tal fita. “Graças a Atena!”
Como ninguém acreditaria que Aquiles, – o de pés rápidos, pois corria muito -, morreu com uma flechada no calcanhar, arranjaram um jeito de encher o peito do herói com outras flechas – achei bacana isso - deixando de lado o fato de que Aquiles só era mortal no calcanhar por causa de uma proteção recebida dos deuses, durante banho que a mãe, uma ninfa, lhe dera na fonte sagrada. A culpa foi da mãe, que o segurou pelo calcanhar, enquanto o banhava. E que azar do rapaz me tomar uma flechada justo ali. Esses deuses! Esses banhos sagrados! Essas mães!
Para a façanha da flechada trouxeram Páris Bloom - o antigo elfo do Senhor dos Anéis – já tarimbado nessas lides de arco e flecha para desferir o tal dardo letal que ninguém sabe mesmo de onde veio.
Veio de alhures.
Para não contar o final – que é estragar o prazer, hoje, ‘spoiler’ pelos modinheiros -  o diretor de Troia extermina com o resto da mitologia e, por conseguinte, das obras para o Teatro Grego. Vá lá ver. Para quem não sabe do lance passa batido.  Com o final modificado era necessário eliminar Cassandra. Vá lá ver. Não me fique olhando com essa cara! Ou leia.
O filme é fraco. Uma aventura fraca. O texto é banal e tem coisas do tipo “Vamos fugir juntos de Troia, meu amor”. Só faltava dizer: “... e fundaremos Roma”.
Da mesma forma, as cenas de nudez – veladas por sombras e noites - são inúteis, por serem desnecessárias, e, podem estar ali como não.  Tão rápidas e furtivas que os atores levaram mais tempo tirando a roupa do que gravando.
Na verdade, ou no sonho de Homero – a guerra de Troia não é guerrinha para  dois ou três dias. Durou dez anos, e, aquilo que vemos na telona corresponde ao décimo ano da guerra. Esse longo tempo é dramático, em si mesmo, onde teremos sítio, fome, doenças, desesperos, saudades da terra natal e outras emoções que não passaram pela óptica dos autores de Troia, o Filme.
Temos atreus, argivos, micenenses, beócios, helenos, argólidas, espartanos e outros tantos juntos numa Liga contra a poderosíssima e invencível Troia. Império que já durava mais de mil anos.
Troia é um filme de puro senso comercial, sem nenhuma pretensão de outra coisa a não ser divertir. Perderam, no entanto, a oportunidade de divertir e educar, sem perder a mão e nem o sangue espirrado. Um paralelo positivo foi Brave Heart - Coração Valente – também na linha da lenda e da história; maior conteúdo veraz, apesar da mortandade nas guerras. Aliás, alguns atores estiveram nos dois filmes. Talvez sejam especialistas em filmes épico-sanguíneos.

A trilha sonora de Troia chama atenção pela melodia do canto, logo no início, muito inspirada nas 18 vozes búlgaras e poderosa massa sinfônica. E tudo isso é muito belo.



4 comentários:

  1. Que foto perfeita *-*
    Só de ver já me deu interesse em ver.
    Abs

    ResponderExcluir
  2. Texto muitíssimo interessante. Já vi tantos filmes épicos, que atualmente discuto até o ótimo Sócrates, de Rossellini.
    Fato é que se algum dia um diretor resolvesse transformar em filme a obra de Homero na sua integridade, o resultado provavelmente seria uma obra repleta de deuses brincalhões, cínicos, e muito sangue.
    Você faz uma analogia bastante interessante e que gostei, com Brave Heart. Isso me leva a pensar que se colocássemos as duas obras cinematográficas numa mesma mesa, a pergunta seria até óbvia: até que ponto é interessante desvirtuarmos os mitos, as lendas, para meramente obtermos lucro comercial?
    É claro que os mitos, se existem, é para serem discutidos mesmo, são controversos já na essência, mas penso comigo... Brad Pitt perdeu a chance de aparecer em um bom filme.

    ResponderExcluir
  3. Na verdade, a Ilíada de dez anos se transformou num acampamento na praia de, digamos, 5 dias? Uma aventura que não faz jus à odisseia que viria em seguida. O que mais me assustou, mesmo, foi o tamanho da frota. Acho que nem no Dia D havia tanta embarcação junta. Onde acharam lugar para atracar tudo aquilo, eu gostaria de saber. Mas vou deixar de ser chato, afinal, assisti ao filme sabendo o que poderia esperar dele: pouca coisa. O que esperar de Wolfgang Petersen - que já teve dias muitos melhores - queimando seu próprio dinheiro? Sim, ele é um dos produtores. Homero, para alívio do próprio, está morto há muito tempo, se é que existiu mesmo alguém com esse nome. Se existiu de fato, pediria ajuda aos deuses que faltaram ao filme e transformaria em pesadelo os sonhos do diretor.

    ResponderExcluir