Sessão da meia noite: Birdman


BIRDMAN
lançamento: 17 de outubro de 2014 - USA 
Direção: Alejandro Iñarritu
Roteiro: Alejandro Iñarritu, Alex Dinelaris, Nicolás Giacobone, Armando Bo
Elenco: Michael Keaton, Ema Stone, Edward Norton

Um filme para quem ama teatro. Um filme para quem ama cinema. Nenhum dos dois – teatro e cinema - amados como entretenimento. BIRDMAN rompe com alguns padrões de Roliudi e se deixa levar pelo que há de moderno em Nova Yorque, talvez. Talvez, da Europa.
Se você adora o formulário de sucessos de Syd Field não entra nessa, pois, seu limite está demarcado. Se seu padrão são os filmes inspirados nos livrinhos  Bianca, Capricho e 50 Tons, Transformers e Avengers, esquece. Muda de página. Não é filme para você, e, em se tratando de BIRDMAN, não é para seu bico.
Logo de cara, na abertura, algo que se assemelha às ultimas aberturas boladas por Godard, com as letras coloridas – em cores primárias – surgindo, pontilhadamente, até formarem as palavras necessárias da apresentação.  
A ilusão de um filme sem cortes é imediatamente percebida. Digo ilusão, pois, há muito azul, e, em determinadas cenas, muita gente com camisa verde – um verde escuro -  o que sugere o uso de chroma keyes variados, quase que o tempo todo, e, isso é o truque para o simulacro das cenas que se ligam sem cortes. Há estilo nisso.
Oswaldo França Junior fizera um romance em que a cena principal passa de uma personagem para a outra, já surgindo nessa passagem outra história que segue por si só, retomando a continuidade da primeira história tempos depois. Vemos isso nesse filme.
Filmes em tomada única, assisti um do Hitchcock – Festim Diabólico com um corte no meio, bem camuflado.  Depois vi um brasileiro em que a filmagem durou o tempo do filme, - espécie de filme em tempo real.  A trilha sonora era o que rolasse pelo meio do caminho, havendo alguns artistas em pontos estratégicos para trilhar a filmagem. Neste BIRDMAN temos o baterista onipresente que pontua e dá ritmo intenso ao drama, e, olha que a bateria faz um sério contraponto comentando as cenas.
Metáfora por todo lado, o poder, o desejo, o sonho, e as dúvidas que a vida no teatro, nas artes cênicas, – nas artes, enfim, – deixaram como herança, são vivenciadas pelo ator Keaton. Isso na América. Imagine no Brasil.
Um filme para intérpretes de alto calibre. Uma obra de diretor criativo que foge dos clichês e propõe a metalinguagem.
O final traz a dúvida... uma dúvida que paira, que abre janelas para voos mais altos em termos de pensamentos, palavras e obras. Contudo, dúvida por culpa de quem?
Um filme que traça crítica ao fazer cinematográfico da própria América, em plena Broadway. A questão de se ser um verdadeiro ator ou de se permanecer como eterna e oca celebridade? Participar de blockbusters que alimentam as mentes infantis, ou, ser parte do filminho/cabeça cheio de filosofias?
Estas foram questões discutidas em BIRDMAN.  
A função do crítico será – ops, tiro no pé – falar sobre arte por não ter a competência para fazer arte alguma? Ou terá, o crítico, missão de direcionar e comparar critérios para que os leigos não caiam na arapuca de estrelinhas, alasquinhas e cinquentinhas... que não passam de cata níqueis livrescos que viraram arrasa quarteirões por ação e obra de pesados e milionários jabaculês?
Mas, se o leitor deseja ver obra para adultos, então, é essa. E é boa. E é interessante. Suscita ideias. Estimula sensações.
Se o leitor ainda não for adulto para corresponder às agruras do envelhecer e do processo que o leva ao patamar de rever a sua vida, passe batido e nem fale nada, pois, o que disser será pura e pueril bobagem.
A reflexão sobre a arte e a vida – nesse caso as artes cinematográfica e cênica – sempre serão importantes para se decidir em seguir e permanecer nessas artes, e, quem faz propõe a  reflexão com decisão é Iñárritu, que já mostrou sua sensibilidade e perícia em Biutiful, Babel, 21 gramas, apesar dos deslizes, como 11 de Setembro.
Inclui-se uma surpresa: ZachGalifianakis – o gordinho sempre barbudo em zerentos filmes incluindo a praga dos ‘Se Beber não Case’, cujo nome original é Ressaca - aparece dirigido, contido e até parece ator. Surpresa mesmo!
Finalizando, no meio do caminho, um ator de rua, aos berros, vem recitando a famosa frase de Shakespeare; pretende dizer ao herói Keaton que só desejava deixar uma dica:  
- A vida não é mais do que uma sombra ambulante; um mau ator que se gasta sobre o palco e, então, não é mais ouvido: (a vida) é uma história contada por um louco, cheia de som e fúria, significando nada.
Dica para nossas vidas de plateia.

Dica para nossas vidas de loucos.

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13 comentários:

  1. Estou me programando para assistir ao filme. Mas, interessante as reflexões possíveis que uma boa obra pode revelar. Diante de qualquer obra de determinada complexidade e magnitude, posso dizer também que há não apenas aqueles que entenderão ou não entenderão o filme de acordo com a ausência ou presença de vivência (que não é apenas passar pela vida, mas ter em si uma capacidade de “ver a si mesmo” como uma outra pessoa, em plena rede de sistemas simplificada a que damos o nome de “vida”, grosseiramente traduzida por nós como se fosse uma narrativa, um todo coerente e linear), mas também aqueles que já vêm em processo de auto-compreensão, em uma busca por produtos culturais que lhes sirvam para descobrir a si mesmos em um dado momento. Como disse, ainda assistirei ao filme, e acredito que, se o fizer com atenção, ele poderá me acrescentar algo.

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  2. Esse é o tipo de resenha que potencializa o estereótipo de que Birdman é um filme arrogante. Os espectadores que gostaram do filme ficam tão cheios de si, tão cheios de arrogância... Uma pena. Gostei do filme, mas as pessoas que estão com esse tipo de prepotência me deixam tristes.

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    1. Primeirão de tudo: Arrogo a mim o direito de responder a alguém que nem se assina e se diz sem nome: Anônimo é Sem Nome. Escondido por Avatar em Alguns Tons de Cinza. Então... Tudo vai de como entendemos a coisa, e, a coisa, necessariamente não é como a entendemos. Birdman pode se arrogar o valor de falar sobre as artes cênicas e cinematográficas e mais nada. E, se potencializa... qual o problema: Não há pecado em potencializar arrogâncias.

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  3. Oi! Te indiquei para responder a Tag 7 Coisas! http://docurailusoria.blogspot.com.br/2015/02/tag-7-coisas.html?m=1
    Se responder, me avise para eu poder ver! Beijos, Jú

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    1. Oi Jú... a proposta par responder me chega ou eu vou a ela através deste link? beijo

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  4. Estou querendo assistir a esse filme faz um tempo - mas toda essa história de vários significados dá a impressão de um filme pretensioso, e nem sempre esse tipo de filme me agrada.

    oblogdafenixx.blogspot.com

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    1. Olá, Vi. Sugiro que você somente assista a filmes pretensiosos, pois se aproximam da arte. Além disso apenas os bons fazem esses filmes. E, quando você não estiver pensando assista os outros, os simples, os começo-meio-fim, aqueles que nada adicionam e servem para entretenimento. Não se arrependerá.

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  5. Nao gostei do filme muito metodico e nada de critica caustica em relaçao a industria cinematografica

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  6. a crítica está na questão de que a senhora que escreve para jornais e revistas sobre esse e aquele filme ou peça nem assiste aos mesmos, bastante sua assinatura / a outra referência é quando o pássaro confessa - o ator confessa a si mesmo através do pássaro - que é melhor voltar ao cinema onde não se preciosa de esforço para ser ator, principalmente para atores que vivem de blockbusters. talvez isso não tenha aparecido na legenda para você, mas é dito no texto original. Parece-me uma crítica cáustica. Quem é você mesmo? escondido atrás de um desfaceado avatar?

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  7. Agora que li a resenha, pois 'ontem' assisti ao filme. Novamente o diretor surpreendeu, deixando um filme cuja tomada única inicia-se com a levitação de um Keaton surpreendente no papel, terminando com seu planar.
    Volto no Keaton: interessante a escolha desse ator em especial, justamente um que fez o birdman também nos anos 90 (conforme a crítica do filme); opa, mas não foi um birdman, mas um batman. Um acaso a escolha do ator? Creio que não! A critica aos filmes de "Roliúde" aparecem espalhados por várias cenas, desde à crítica aos atores que migram para filmes de super-heróis (que são trágicos, principalmente quando apreciado por alguém que foi colecionador de HQ's como eu, na juventude), culminando com super produções clichês que nada têm de arte de venda de alma, de se lançar ao nada em busca de uma resposta - como fez a personagem Riggan Thompson.
    A crítica ao crítico de arte foi espetacular! Faltava mesmo o esbravejar do ator diante dessa figura, que muitas vezes execra o trabalho artístico.
    Iñárritu sempre surpreende com os elementos fantásticos, como fez em Biutiful, quando acompanhamos o Uxbal dialogando com espíritos, dessa vez temos um ator decadente que move objetos com a força do pensamento, e plana por Nova York, lar de Edward Norton!
    Aliás, esse Norton, que sempre lembra o ícone Clube da Luta, atuou de forma brilhante, ao interrpretar a loucura de um ator arrogante, que nasceu na poeira dos tablados da Big Apple.
    Um filme que muito tem a dizer, a calar, a falar como uma voz que brota da verdade da nossa lama, como o Batman (ou melhor, Birdman), que flui da mente de Riggan.
    Um filme que mereceu o Oscar de roteiro original. Iñarritu deixou mais uma pérola, junto a tantos outros títulos, que sempre acompanho com embasbacamento. Começou com Amores Perros e fechou com esse. E que não esteja fechado, que venham outros Riggan, Uxbal, Paul Rivers, Richard Jones, Octavios...
    Um brinde à Roliúde pela escolha. E que venha mais Iñarritu.
    Abraços, Coelho.

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    1. André Plez... obrigado pela sofisticada abordagem. Depois dessa tenho que me preocupar com as que terei, ainda, de aprontar por aqui. Sucesso!

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