Especial | Midsommar - O mal não espera a noite


A horrenda beleza do trauma e o futuro de Ari Aster.
(Esse ensaio não contém spoilers)

Midsommar é evidência de dois dos processos que ocorrem no gênero de terror. O primeiro diz respeito à capacidade dessa categoria em explorar temas profundos da psique humana em meio a tons repulsivos e lúgubres. O segundo é uma averiguação, minha (mas que compartilho com tantos outros), sobre a potencialidade das ferramentas cinematográficas mais comuns (do gênero), em transbordar-se para demais espécies fílmicas, especialmente quando usadas com destreza.



Não irei me debruçar muito nos aspectos técnicos particulares usados em Midsommar (isso é objeto suficiente para outro ensaio), basta dizer que Ari Aster prova, para quem não achou Hereditary (2018) suficiente, sua perícia na idealização, escrita e subsequente execução de uma experiência cinematográfica desconcertante e perturbadora.

Já que não sei a quem, em especifico, abonar cada umas das ideias projetadas na tela, vou apontar primeiramente para os encantadores figurinos de Andrea Flesch, os belíssimos quadros efetivados pelo cinematógrafo Pawel Pogorzelski, em conjunto com a iluminação do gaffer Kory Mills. Em seguida para alguns momentos de blocking (marcação) e composição bem interligados e integralizados, assumo que pelo próprio Ari Aster. Esses não são momentos transcendentes como as de um antigo Kurosawa ou, num gênero mais próximo, Hitchcock, entretanto mostram-se suficientemente modernas e plenamente competentes. Por fim, da última vez que senti uma trilha sonora dialogar tão bem junto a estética e direção de arte, foi nas colaborações entre Denis Villeneuve e o saudoso Johann Johansson (espero que entenda o quão sublime é esse elogio), portanto, triunfo para o compositor Bobby Krlic (aka The Haxan Cloak).

Sobre a justificativa de evitar exposições demasiadas da narrativa, peço perdão pela eventual falta de minúcia e expansão em certos elementos da trama. Com tudo isso fora do caminho, permita-me explorar (alguns) dos temas presentes em Midsommar.

Antes mesmo da epígrafe, a dinâmica da relação entre os personagens principais já é estabelecida e questionada, logo em seguida é consolidado um dos aspectos centrais para a construção de um filme de terror respeitável. Como entrée, Aster nos mergulha em uma experiência pessoal e factível, que no mesmo momento perturba e aciona o fator traumático principal de nossa protagonista, Dani, atuada com ímpeto, entre os prantos e guinchos perfurantes da jovem Florence Pugh.

Então, fica rapidamente estabelecido um forte laço entre protagonista e audiência, para que quando de fato entrarmos na espiral nefasta, do núcleo do filme, não seja apenas um espetáculo, estamos sofrendo vicariamente e “devidamente investidos”, parafraseando o próprio Ari Aster. Qualquer cinismo e resistência dirigido a formação desse vínculo, por parte da audiência, é desrespeitoso e um desserviço para/com o filme.

Condizente com as diretrizes mais primazes do terror, retomando Robert Wiene e O Gabinete do Dr. Caligari (1920), vemos influência direta de The Wicker Man (1973) e do mais recente Apostle (2018). Aster empenha-se em mostrar uma realidade distorcida, nauseante e suavemente alucinógena, quando os personagens são expostos a substâncias psicoativas. As good trips e bad trips são visualmente sutis e palpáveis, nada de Enter the Void (2009) do Gaspar Noé.

Dessa forma, o filme não se debruça apenas na figura de um monstro (como Chucky, Samara ou John “Jigsaw” Kramer) e/ou em sanguinolência extravagante. Esses dois aspectos aparecem no filme e são chocantes, mas não se configuram como pilares para a indução do mais completo pavor e desconforto. Depois de talvez meia hora de filme, a promessa do horror surge quando os personagens viajam para Hårga, pacato vilarejo na Suécia, cenário que corporaliza o “monstro”, junto com as práticas do festival exótico (na perspectiva de turistas norte-americanos) de “Pleno Verão”.

Entretanto, a vila é receptiva, bucólica, povoada por pessoas simples, simpáticas e meigas, o que é ainda mais inquietante quando a coisas vão, gradualmente, ficando mais intensas e estranhas. Ali Dani encontra sua versão de Oz, vivencia outro mundo, onde ela (talvez inconscientemente) busca suturar suas feridas, reviver seu relacionamento moribundo e principalmente tratar seus traumas num seio familiar, é quase um conto de fadas ensolarado, mesmo com toda a carnificina que se instaura. Um óbvio e incessante contraste estético entre fábula terna e tormento angustiante.

Ela encontra no culto da vila uma sociedade que valida seus sentimentos, e possivelmente pode ajudá-la, mas com o potencial para que práticas horríveis sejam normalizadas. Ari Aster busca inspiração para desenvolver isso com alusões a diversos cultos e religiões reais, tornando a iconografia e simbolismo em algo multidimensional, ainda que alicerçado num neopaganismo nórdico (recomendo uma segunda contemplação com um dicionário de runas em mãos). O culto não é um monstro sedento por sangue, os primeiros indícios de aflição na trama fazem ele (o monstro) aproximar-se sorrateiramente, de início apenas na mente, para então capturar a essência humana e levá-la a insanidade.

Dani representa um dos mais universais desejos humanos, o senso de pertencer. Nossa mente não é feita para ficar isolada, sozinha; todos queremos ser parte de algo. Pertencer, fundamentalmente, permite que formemos nosso próprio senso de identidade, mesmo que homogêneo ou sem originalidade. Para assim estabelecer conexões sociais através de uma comunidade que forneça empatia, amor, atenção, segurança e propósito, embora apresente aspectos, centrais ou não, moralmente perversos.

Esse espaço investigado por Aster é um lugar vulnerável da nossa psicologia, se você passou pelo fim de um relacionamento amoroso recentemente, o processo ressoa de forma dilacerante. Esse embate é desconfortável, uma meditação no seu próprio ritmo, implacável, envolto nos sons de vozes, cordas e tambores suecos. Induz uma catarse emotiva, clamada por sopros e flautas, surpreendentemente ansiolíticas.

Arquitetada nos limites de uma antropofagia metafórica (e também possivelmente literal) que calibra e reorienta nossa perspectiva sobre a morte, a jornada de Dani é cavernosa, através da lente de um relativismo cultural misturada com curiosidade antropológica. Rumina-se tribalmente para dentro e para fora do Ser, ficamos muito próximos da miséria afetiva vivida por Dani, quase participando, pretendendo chorar e gritar com ela. São reflexões sobre dependência, dor, renascimento e renovação que terminam em zumbidos musicais folclóricos, provocadores de lágrimas, de gloriosa esperança macabra.

Agora vem a parte que eu advogo em pró da existência de um linha tênue e rubra entre o gênero de ação e o de terror/horror. Essa barreira existe na categorização, mas é embaçada e enfraquecida pelos objetivos, convenções e ferramentas cinematográficas compartilhadas pelos dois grupos.Pode-se ver traços da brutalidade de diretores radicados no gênero de ação, em seus filmes de horror. Isso me leva a pensar que criadores com essa característica podem transpor-se entre os gêneros virtuosamente (seja de terror para ação, ou vice-versa).

Afinal, o que são boa parte dos filmes de ação modernos na “vanguarda” (leia-se pós década de 80, que quebram com a ideia do Übermensch bombado), além de sobrevivência a todo custo contra probabilidades impossíveis? Quase sempre cheios de horror corporal, simplesmente por conta da quantidade de destruição humana envolvida. A exemplos de: The Raid (2011), The Raid 2 (2014), V/H/S/2 (2013), Headshot (2016) e The Night Comes For Us (2018), todos esses são um tipo de John Wick (2012) do cinema indonésio. A própria franquia John Wick serve como modelo para o que expus, portanto, não duvide da capacidade de Derek Kolstad escrever/dirigir um filme de terror excelente, depois de terminar com The Falcon and the Winter Soldier (2020).

Sinceramente, não faltam exemplos que fundamentam a hipótese que chamo de “transbordamento”: Sam Raimi começou com o sinistro The Evil Dead (1981) e nos presenteou com os primeiros filmes do Homem-Aranha; James Cameron veio da ação cheio de sci-fi horror com O Exterminador Futuro (1984) e virou um dos maiores diretores (quiçá o maior) de todos os tempos; John Carpenter facilmente flutua entre ação e horror por toda sua filmografia (Assault on Precinct 13 [1976], Halloween [1978], Escape from New York [1981], The Thing [1982] e etc.); mais recentemente temos Leigh Whannell, escrevendo os 3 primeiros filmes da franquia Jogos-Mortais e depois criando o eletrizante cyberpunk (e um dos meus filmes favoritos de 2018) Upgrade.

Já citei o arrepiante Apostle (2018), dirigido por Gareth Evans (radicado na franquia de ação The Raid), no qual o diretor mostra sua engenhosidade num filme parecido com Midsommar, de criatividade marcante e distinta que já havia sido exibida em The Raid e suas sequências. O lendário Oliver Stone surgiu com curtas de terror; Peter Jackson tem suas raízes na terror-comédia (Bad Taste [1987], Meet the Feebles [1989], Braindead [1992]); Kathryn Bigelow tem Near Dark (1987), a lista é grande. Se para nada mais, todas essas amostras ao menos servem para apresentar que cineastas promissores usam esse gênero para flexionar seus músculos criativos, com produções de relativo baixo orçamento (terror é o gênero com menor orçamento médio) e, consequentemente, menos risco.

Em qualquer um dos gêneros, sentamos para apreciar personagens serem colocados em situações estressantes e perigosas. Eles utilizam batidas similares e sequências de grande drama, de maneira aproveitadora, para invocar respostas emocionais na audiência. Na ação, normalmente, a cada 10 minutos inicia-se uma cena de luta ou peça-chave/peça-conjunto (set-piece) equipotentes. No terror coloca-se um susto/surpresa ou choque narrativo homólogo.

Além disso, nos dois estilos engenha-se uma conclusão que é, tipicamente, a sessão mais árdua e de maior gravidade. Claro que isso é válido para quase todos os gêneros, mas enquanto na comédia, drama ou tragédia tenta-se elicitar certos sentimentos específicos de cada um, a ação e o terror consistem essencialmente em conjurar adrenalina. Cada um coloca seus protagonistas em situações violentas, nas quais esperamos que eles saiam vivos. É inegável que alguns subgêneros desses dois grupos estão mais próximos entre si. Via de regra, podemos dizer que quanto mais violenta a ação e mais intenso horror, mais próximos na estante eles ficam.

O entendimento profundo de como esses dois tipos funcionam conduzem para versões melhores de cada filme, já que estes e aqueles voltam sempre para a criação de tensão e a síntese de querer que os personagens cheguem ao final (em maior parte) ilesos. Cineastas que compreendem ritmo e constância na edificação de apreensão narrativa, criam produtos finais diferentes, mas fortemente relacionados em suas estruturas. Isso é testemunho desse transbordamento de talento e perícia direcional entre os gêneros.

Por sua vez, Ari Aster aparenta-me ser um desses diretores. Hereditary e Midsommar são cheios até a boca de todos esses pontos que explicitei. A possibilidade de traduzir esse manejo cinematográfico para o gênero de ação é alta e parece-me inevitável em sua carreira. Só falta ouvir isso diretamente dele, afinal de contas ele tem que se identificar com o gênero.

De qualquer forma, com posso sair de uma sala de cinema tão feliz (mesmo que um tanto ébrio) após ver tamanhas atrocidades num filme de terror como Midsommar? Talvez seja porque ele recalibra meu senso de certo e errado e me anima para qualquer que seja o próximo golpe de Ari Aster.

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