Crítica | Corra! ("Get Out")

Título: Corra! (Get Out)
Diretor: Jordan Peele
Roteiro: Jordan Peele
Distribuidor: Universal Pictures
Elenco: Daniel Kaluuya, Allison Williams, Catherine Keener, Bradley Withford, Caleb Landry Jones, Lakeith Standfield, Stephen Root, Lil Rel Howery.
 Classificação:  Nenhum texto alternativo automático disponível.

Sinopse: 
Chris (Daniel Kaluuya) é jovem negro que está prestes a conhecer a família de sua namorada caucasiana Rose (Allison Williams). A princípio, ele acredita que o comportamento excessivamente amoroso por parte da família dela é uma tentativa de lidar com o relacionamento de Rose com um rapaz negro, mas, com o tempo, Chris percebe que a família esconde algo muito mais perturbador.

                                                   Resenha


O perigo pode residir em uma face hospitaleira e gentil, com as más intenções bem guardadas no subsolo da mente, mas sem jamais esquecê-las. Essa é a primeira lição que podemos aprender com Corra!, filme que vem agitando discussões nos EUA e promete ser uma das grandes estreias da temporada no Brasil. A sua grande inovação está no que os críticos estão chamando de "terror racial".

Em meio às produções de tamanho relevo na temática racial que surgiram nos últimos anos (Eu não sou o seu Negro, Cara gente branca, o oscarizado Monnlight e a amada série do povo brasileiro, Todo Mundo Odeia o Chris), Corra! vem abordar a questão do preconceito e conflito racial, questão tão latente nos Estados Unidos nessa última década, por meio de um conto de terror muito bem orquestrado por um comediante(!), isso mesmo, Jordan Peele, roteirista e diretor do filme é um comediante, mas esse artista tão habituado a causar risos em suas plateias agora nos presenteia com uma obra terrificante, que nos causa não apenas medo, mas indignação.

Com diálogos muito bem construídos, Corra! surpreende pela sua forma enxuta, sem recorrer a clichês da temática racial ou a fazer discursos, pois as entrelinhas transcendem qualquer discurso. 

A aguda percepção de Peele mescla com inteligência a metáfora, a simbologia das ações e um humor próprio para garantir ritmo à narrativa. A cereja do bolo sem dúvidas é o surpreendente humor, equilibrando a dose de suspense e tensão sem quebrar o clima do filme. Um aviso aos navegantes: mesmo aqueles que não estejam familiarizados com a língua inglesa, é recomendável assistir em sua língua original, pois ao longo do filme é perceptível o uso do chamado 'black english', uma forma peculiar de uso da língua que é própria de comunidades afro-americanas nos EUA, e isso torna a experiência mais completa.

O time de atores cumpre bem o seu papel, havendo atuações propositadamente teatrais (exageradas para o cinema) que são feitas com primor. Destaco a atuação de Lil Rel Howery, que rouba a cena com seu humor sagaz, o aflito Daniel, com suas expressões carregadas de uma espécie de melancolia e auto controle e a estreante Allison Willians, que prova que também pode brilhar nas telonas.

O filme em si traz a melancolia do personagem principal em sua paleta de cores, que começam em um azul quase metálico e passam por um amarelo sóbrio e o marrom. Uma das metáforas mais bonitas do filme são as fotografias do personagem principal (que é um fotógrafo): todas capturas de cenas urbanas, com o equilíbrio de contraste entre o preto e o branco.

A crítica que marca o filme chega ao seu ponto maior no clímax do filme e a sua conclusão não fica solta nem aberta no final. O que fica no espectador é uma sensação de sufoco durante todo o filme, com uma catarse que pode vir ou não, mas que se revela na reflexão, que é proposta ao espectador e não dada de bandeja. Não falar nada objetivamente e dizer tudo claramente é a maior mágica de Corra!.

Obs.: o título original, 'Get Out', pode dizer imperativamente 'saia', como uma ordem, muito utilizado para expulsar pessoas de um local ou para se por a salvo de alguma situação, como seria a tradução 'corra'. Essa dualidade infelizmente foi perdida, uma proposta similar para o português que cairia muito bem seria a expressão "Dê o fora!". 




                                         Autor: Lucas Nascimento dos Santos.

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